Mariano Soltys
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MEMÓRIA DO FUTURO – NOVELA –PARTE 29
MEMÓRIA DO FUTURO – NOVELA –PARTE 29

Diário de MS. 22 de Setembro de 2012. Hoje passei mal. Foi antes do almoço, não que tivesse fome de almoçar alguma coisa. Deixei de almoçar.  Não foi a comida, nem qualquer espécie de regime alternativo. Na verdade eu vomitei para dizer a mim mesmo que meu peito pesava, que meu amor chorava pelo estômago. A tristeza que eu fingi não ter virou algo que regurgitado foi. Tal pesar no peito é sentido apenas por pessoas que chegam ao extremo do desânimo. Não que eu não tente me animar, ou que não aparente alegria. Isso já me vem tomando de alguns dias, a vontade de cair nas lágrimas e no pranto. Não há mais motivo. Não sinto fome, não sinto sede, não tenho vontade de dormir, nem de acordar. La fora o sol brilha, o verde do jardim pinta a esperança. Eu olhava para meu quadro na parede, onde aquelas duas figuras abraçadas trazem um pouco de cor para meu olhar cinza. Penso: será que existe um pouco de cor lá fora? Esse trabalho está me matando. Nunca tive eu cabelos brancos, e agora nos meus sete anos de advocacia, começam a vir alguns. Na flor dos meus trinta anos pareço um Alvares de Azevedo, mas ainda não me tomou alguma tuberculose. Hoje o pesar no peito fez assim que eu vomitasse a tristeza. Para me dizer que estou mal, que meu inconsciente não pode ser enganado. Dolor amoris, dor de amor. De todos os amores que não tive, de toda a flor que apodreceu em meu jardim de aspirações. Tantas pessoas ajudei sem querer, que meu desejo talvez se viu esquecido. Cada dia penso em alternativas para ser mais feliz. Hoje sonhei que jogava basquete. Também que uma jovem moça vestida de noiva andava de bike numa estrada tortuosa. Será meu amor que vem em estradas de ciclovia? Aqui está frio, renoivada alegria, onde está o branco de tua geada? Mas é como se eu fosse nocauteado, meu peito estava pesado. Não podia respirar. Última vez que me faltou o alento foi quando era goleio na adolescência. Um bom goleiro. Eu pegava pênaltis. Ouço Smiths enquanto penso na lembrança de Julianne. Não mais há lembrança. Facilmente sou esquecido, como a areia do deserto que desliza sobre a pirâmide de Gizé. Faz tempo que esqueci de abraçar meu cobertor ao dormir. Ir e vir é liberdade. Se fosse apenas saudade, eu seria um Shakespeare inventando a Tempestade. Algum senhor de todas as coisas, manipulando as forças da natureza. Mas quanto idealismo resta em mim? Já fui recordista em ter otimismo. Estava lendo livro sobre robôs, de Asimov. Como se as pessoas fossem menos mecânicas. Acredito que nem todas. Poucas, o contrário. Sei que há um tempo que parece ser o fim da era industrial. E também de trabalhadores autônomos. Vejo que o futuro será da cultura e do entretenimento, para não acontecer de alguém sofrer do seu peito. E assim não vomitar a tristeza. Mais fácil é chorar. Mas esse tempo de trabalhar já acabou, e as pessoas vão trabalhar muito para comprar remédios e antidepressivos, aí nascerá um gênio que dirá para elas viverem a vida. Um alquimista diria que a impureza tem de sair em algum lugar, para que se encontre a pedra filosofal. Mas no geral o dia acabou bem, e eu heróico ser sobrevivi mais um dia. Mais um dia se foi. Espero nasçam dias melhores. Encerro esse relato do dia 22 de Setembro de 2012, ano do fim da Era dos egoístas. Tina assim chorou ao ver a memória de MS, e programou a sua impressão em versão 3D, o que seria na mesma época do nascimento das meninas.  
Mariano Soltys
Enviado por Mariano Soltys em 22/09/2012
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