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O jeitinho brasileiro e as eleições
 
 
                Recentemente tivemos o majestoso aniversário de nossa cidade e estive passeando pelo litoral próximo. Tudo estava muito tranquilo, e o clima estava nublado por lá, quando aqui fazia um belo sol. Mas ao viajar, se surpreendi com o costume dos motoristas na estrada, o que cada vez mais nos faz pensar que o problema no trânsito é cultural, mais do que apenas legal ou de se punir infratores. Como já falou em uma coluna do jornal “O Estado de São Paulo”, Matthew Shirts, vivemos em uma sociedade contextual, e não contratual. Isso implica que as pessoas apenas respeitam as leis após uma análise pessoal.
            Vemos em vários campos da sociedade brasileira o popular “jeitinho”. Isso deixa qualquer estudante do curso de Direito perplexo, uma vez que as doutrinas e leis são tão belas e objetivas, mas que acabam por sofrer frente essa análise. Atualmente, em curso de filosofia vejo mais criticamente a sociedade, de modo que percebi esse contexto que envolve as pessoas, e suas “malandragens”. Todas as vezes que se entra em uma estrada se presencia ultrapassagens em locais proibidos, veículos sem condição de trafegar, ou até mesmo andando na contra-mão. Não há uma consciência ética, e tudo acaba sendo de um modo ou outro descumprido. As regras são assim colocadas de lado, e o sistema Judiciário a toda a hora tem de compensar esse costume duvidoso.
            Já em certos países, onde a sociedade é contratual, as regras e leis são respeitadas, independente de punição, e mesmo a punição, se houver, é mais severa. Seja nos EUA, ou mesmo Alemanha, vemos que não se avança um sinal vermelho, e fora as celebridades, se evita dirigir após ter ingerido algum tipo de bebida. Por aqui a situação melhorou após a “Lei Seca”, e parece que quando se afeta o bolso, o jeitinho acaba ficando um pouco de lado.  Por isso que se fala que certas leis não pegam. Até a referente a palmada já está sendo questionada. A questão é mais cultural que meramente legal. Apenas criar novas leis não resolvem problemas estruturais.  
            Muitas são as regras descumpridas, e até por certo comodismo. Vai desde regras trabalhistas, ambientais, DVDs piratas, gato de TV por assinatura, entre muitos outros exemplos. Vemos tristemente essa esperteza, e muitos são os prejudicados, como artistas e trabalhadores de empresas, uma vez que quando se paga por um produto ou serviço, se leva em conta sua cadeia produtiva. Exige-se uma verdadeira responsabilidade e autonomia, e que nossa sociedade ainda não cresceu para tanto. Não passamos por guerras mundiais, e recentemente tivemos a tristeza em relação à Copa do Mundo. Perdemos uma identidade de caráter.
            Por tudo isso que vejo não como solução o mero voto em branco ou nulo, ou discursos de moralização, quando cada um em pequenas coisas faz o errado. A ética tem de ser questionada e ensinada. Não apenas geografia, matemática, mas ética nas escolas. E ética é matéria filosófica. Daí da utilidade de certas coisas, e apesar de não render dinheiro imediato, rende a longo prazo, pois acaba-se pagando com advogados, justiça, multas e toda a sorte de prejuízos, por se usar do jeitinho brasileiro. Elegemos os semelhantes, e depois reclamamos da corrupção e improbidade. Outra mudança necessária é do sistema federativo, uma vez que pagamos nossos impostos a União e esses não voltam. Também se tem de fazer mais plebiscitos, uma vez que matérias como redução de idade penal, eutanásia, reforma política, aborto e tantos outros são de interesse direto do povo, e não de representantes muitas vezes mal formados e informados. Porque a política virou uma carreira, virou um jeitinho de fazer a vida. Que a política seja voluntária e honrosa, e assim mudamos o país. E cada um de nós evite qualquer jeitinho, pois doutro modo se paga caro.
           
 
 
Mariano Soltys
Enviado por Mariano Soltys em 26/09/2014


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